25 de junho de 2007


A FLORES, VISTAS DE BAIXO (2)

De vez em quando, olhava para a minha mãe que lavava no tanque grande. A pilha de roupa começava a ceder, flutuando num dos lados sobre uma mancha branca de sabão. Era a parte de enxaguar; a que ela tinha pedido ao pai que lhe construísse, durante pelo menos 3 anos. A minha mãe esfregava a roupa de cá para lá e de lá para cá, rasgando os dedos finos e vermelhos contra as areias que tinham sido coladas à pedra de apoio para melhor arrancar as notas de unto. Também ela levava por vezes a mão ao cabelo para o desviar da cara, soprando, e observava Jacinta. Assegurava-se de que ela continuava à vista e não se tinha voltado a lembrar de fazer uma fogueira com pilhas de paus. Jacinta sabia fazer fogos maravilhosamente realistas para a sua idade. E mesmo se não chegava à fase de os acender, ainda assim, as suas bonecas pareciam contorcer-se de dor, prisioneiras das posições em que as deixava. A minha mãe não queria arriscar esta visão.

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